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Religiosamente acordo todos os dias por volta das 3 ou 4 da manhã. Já cortei no café, mas algo me faz não conseguir ter uma noite seguida de sono que descanse. Levanto-me a contragosto e vou para o computador escrever. Ou fico no quente enjoativo dos cobertores, a gastar os likes e swipes, de um número infindo de gajas, que procura nestas apps, uma forma de prosseguir o logro. De anestesiar o desespero, de se convencerem a si mesmas que estão a caminho de alguma coisa, e que todo o trajecto anterior, não foi responsabilidade sua. Como homens, temos as costas largas. Os excitantes são os maus, os outros, pagam por tabela. E é tão bom gostar do mau. A facilidade com que se sucedem pretendentes no ecrã do smartphone, revela a proporcionalidade do valor atribuído a cada um… uma lista interminável de prospectos que nunca se concretizarão, na maior parte. Que tolos, que abjectos, em número e massa, a confirmar a fortuna de ter uma vulva no meio do universo. As apps tornam os homens, a maior parte eles, pelo menos, em tipos que aplaudem, que louvam e gabam, as donzelas que solipsistas, acham sempre que o mundo as trata pelo primeiro nome. É uma situação win-win. Se o pré-rejeitado persiste em dar atenção, o ego sobe como balão de Gusmão e passarola. Se não é rejeitado, vai a uma entrevista de emprego onde coisas importantes, como a marca da roupa, a nonchalance e a análise da sua posição hierárquica na aldeia dos macacos, definem o passo seguinte dos degraus infindos, onde supostamente lá no fim, se encontra o coração de uma gaja, incondicionado e pronto a jorrar amor puro. Só que não. Miram-se e comparam-se umas às outras, avaliam-se mutuamente na capacidade de vestir de acordo com a moda, ou de manipular os pobres diabos que as desejam. Cadeias de hierarquias cuja aparente complexidade só reafirma a ideia que têm do seu grau de ‘especialidade’ no universo, do qual se consideram o ponto mais alto na antropogénese. Passo horas a analisar a linguagem corporal, as imbecilidades que escrevem, faço a genealogia da sua forma de pensar, para perceber em que acreditam, e porque pensam o que pensam. Gostava de ter uma máquina do tempo, para voltar atrás e dar-me um enxerto de porrada por pensar que eram assim tão complexas. Parece que um engenheiro que olha de forma mais complexa do que o real exige, e se perde mais nos pensamentos que na complexidade do objecto de estudo. Parecem complexas porque são simples. Desde que estejas disposto a destruir o ídolo. Continuamente me deparo com a ideia de que não consigo aceitar o grau tão pálido e convencional que a maior parte delas, exprime, no que concerne a ter uma personalidade. E da relação entre ter uma personalidade e acreditar profundamente que lhes é devido algo, que de alguma forma, os seus defeitos são medalhas de distinção, pelo simples facto de que sendo quem são, são uma bênção ao mundo, que valem por si, apenas por existir. Aos tipos, não é concedido ter, esse espírito. Desde pequenos que interiorizaram, que o valor vem daquilo que conseguem fazer ou proporcionar a x ou y, e não de uma essência qualquer que se situa no mundo. Excepto se conseguirem ser os tais ‘maus’ que lhes metem o coração a bater depressa. Os maus no passado eram aqueles que sabiam onde se fazia um bom bife de mamute e onde havia uma fonte de água fresca. Percebe-se agora o valor real por detrás de algo que nunca parecera lógico. Eu compreendo-as, em parte. Grande percentagem destes homens, acabam por se resignar a olhar para si mesmos como entes que trocam a sua utilidade, por afecto e favores sexuais. A maior parte deles, com barriguinha ou calvície, passam uma vida inteira sem saber o que é desejo genuíno de outro por si, e vêm a aceitar que todo o amor, em todas as suas expressões, é contratual, uma troca cujos termos definidores são implícitos e não passíveis de verbalização, de modo que uma das partes os possa moldar a preceito. Elas, bem, elas agora escondem-se por detrás de biombos…se é que não se esconderam sempre. São as tatuagens e piercings, placebos de histórias de vida e experiências, de feitios wild at heart tão convencionais como papel higiénico perfumado. Tudo tentativas de controlar ou determinar ao máximo a percepção que o outro, tem delas. Como se quisessem imitar uma personagem de anime, para se distinguirem das demais, e depois acabam por se confundir mentalmente com a própria imagem. A maior parte destas gajas, é metaforicamente um zombie. Tão autênticas em diferido, como os programas de merda na TV de merda, que cresceram a ver. Se isso me chateia? Um bocado. Aborrece-me e parece-me indigno de gente decente. Criado pela minha mãe, tenho demasiado respeito pelo gajedo. Espero sempre o melhor delas. E elas odeiam isso, odeiam a exigência de dar o exemplo, sentem-se encurraladas a ter de ver a sua liberdade restrita por normas e por terem de ser responsáveis por actos e escolhas. Sentem-se pressionadas a ser autênticas por um gajo que ou não parece valer o esforço, ou que apenas as querendo autênticas, lhes desfaz involuntariamente a ilusão, e deixam de se ver a si mesmas como personagens de anime. Se me chateia, sim, pelo menos porque escrevo sobre isso. Mesmo sabendo que para ‘elas’ nada é pessoal, é sempre a andar, até ao caixão, com uma mente que as isenta a qualquer avaliação negativa ou desconfortável das suas decisões, e que, portanto, não conseguem evoluir além do exercício estético de se tornarem no ideal que lhes soa melhor. Que receberam da natureza, uma capacidade de esquecer e seguir em frente, análoga à pele grossa de um elefante, sem predadores na savana. Mas os tinderes e os bumbles não são novidade, nos efeitos que provocam. Antes de aparecerem, já havia tipas que haviam trabalhado em bares ou ginásios, e que por isso, da avalanche de solicitações de homens interessantes, perderam com os anos, a capacidade de serem seduzidas. São as tipas que olham para ti como se soubessem sempre, o que vais dizer, porque enquadrado com o que n gajos lhes disseram antes. Quando estás com elas, nunca estão apenas os 2, mas toda a lista de gente que lhes povoou os afectos, e que na fase em que te cruzas com elas, não é desejo genuíno, mas uma necessidade qualquer, um vazio, um buraco, que vens preencher, num papel de prémio de consolação. Esta era diferente. Do alto do seu metro e sessenta, botas Dr. Martens e pálpebras carregadas de negro gótico, é capaz de ser a tipa mais inteligente que já conheci. Mesmo no meu carro nos amassos, e ao agarrar-me a tomateira, exclamando «-Vamos ter de tratar da horta!», ri-me uma boa meia hora…. É preciso inteligência para ter sentido de humor. Tinha algo de mais que boa presença física, tinha personalidade. Após ter lido umas páginas do blogue, disse-me : «-Agradas-me, és um romântico.» Fiquei a pensar naquilo, romântico, eu? Foda-se. «-Porque é que dizes isso?» «-É claro e notório que reages contra algo que não consideras natural, o que chamas de ‘foder industrialmente’. É porque achas que as relações entre as pessoas são algo de mais complexo e profundo, e onde achas que os outros vêem ressabiamento de rejeitado, eu vejo um lamento existencial em relação a uma doença civilizacional.» E isto meus amigos, calou-me bem calado. Durante uns dias, após ter vindo a pé, da praia do Carvoeiro até minha casa na costa oposta.
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