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Há uma certa solidão que é preciso aceitar, quando se olha por debaixo do capot. Quando se cede, por fim, ao arrancar de membro que é a destruição das últimas ilusões pueris, em concreto, sobre o carácter do amor feminino. Epá, não é nem melhor, nem pior, que o masculino. É diferente. É circunstancial. As cachopas precisavam de ser egocêntricas no passado evolutivo, isso garantia mais hipóteses de sobrevivência em comunidades constantemente em perigo e violentas. A selecção dos conas terá começado, formulo eu, alí por alturas da emergência da burguesia, do primado do comércio, do zénite da contabilidade organizada. Tal deverá ter despoletado uma alteração das virtudes másculas e um geral assumir de preferências, nelas, de que queriam homens ‘inteligentes’. Mas isto é uma generalização e vale o que vale. Bem menos que a tipa no copo de água, que faz questão de me mostrar as pernas, do outro lado do salão, com um riso que supõe enigmático a condizer com as ligas caras que me mostra. Não as censuro, de todo. Faz parte da luta pela sobrevivência. Do levar o melhor que se pode, desta vida estranha e curta. Nem sequer lhes censuro a falta de carácter, que reside essencialmente em serem pessoas do mesmo quilate em que são mulheres, isto é, circunstancialmente determinadas por um conjunto de traços imune à expressão de uma unicidade em forma de personalidade vincada. Mas que não se pense que os cachopos são melhores. Têm uma diferente falta de personalidade. Levanto-me para ir buscar uma cerveja de novo, e fico retido num pequeno grupo de mancebos que comentam o que se comenta nestas efemérides, e escuto e tento aferir o estado marital de cada um, dos celibatários involuntários com mentalidade de carência, dos celibatários voluntários a braços com uma amargura decorrente da não aceitação das regras do jogo, dos acasalados não conscientes do preço que pagam, e dos acasalados que sabem perfeitamente as regras do jogo, e se acaso têm alguma humildade, são os melhores parceiros de conversa. Estranhamente o assunto surge, o amigo em comum que dará o nó, deixando para trás uma vida ‘não estruturada’. Os celibatários opõem-se sustentando que a rejeição de convivência além do sexo, com o mulherio, poupa muita vida e é a melhor opção. Os mais vivazes são os involuntários, que assim escondem o seu completo desespero em perceber o que está em jogo. Oscilam como elefantes em loja de porcelana, entre justificações de que as gajas são todas e sem excepção, umas putas, que só ligam a dinheiro e músculos, e/ou que andam todas minadas do juízo por conta de uma cultura que as apaparica. Os acasalados ignorantes (voluntários na ignorância ou não), sorriem de forma arrogante, porque sentem que o lograrem ter pito ocasionalmente, lhes justifica o valor enquanto homens. O facto de terem uma mulher pelo braço, é um sinal aos céus, e aos outros, de que algo em si é amável, e pelo caminho, resolveram uma equação. A incapacidade de outros neste aspecto da vida, é visto como fracasso, genético ou de percepção limitada, e os vistos como ‘coitados’ são simultaneamente tomados como maiores responsáveis do seu fracasso nesta luta pela vida, pela propagação de genes, pelo alívio da líbido. Já o dizia o velho Álvaro Ribeiro, na tradução que fez de ‘A verdade do amor’ de Soloviev, vida em que não se consegue seduzir uma cachopa para fazer existência comum, é um fracasso. Gostava de ver o Álvaro, numa discoteca hoje em dia. Os acasalados conscientes pareciam ser os mais calados do grupo, porventura por perceberem o preço pago, e conseguirem esboçar os porquês da coisa ser como é. Um ou outro desse grupo, se divertia claramente com a conversa, de gente que considera inapta cognitivamente, sem muito se abalançar nos motivos psicológicos por detrás do viés cognitivo de cada um. Mas em geral, com pudor em enunciar frases pouco simpáticas em relação ao mulherio, não só porque parece mal aos outros, mas também porque muitos deles têm mulheres e filhas, por mais que os celibatários digam que nada tem a ver com as pessoas mas com uma sociedade do consumo que apaparica o maior consumidor de recursos do planeta, aquele que mais facilmente se deixa manipular pela propaganda comercial, dos cosméticos e do vestuário perene. Mas latente e em uníssono, nota-se um incómodo transversal, os acasalados por saberem que abdicam de parte da sua personalidade para manterem umas cachopas hiperexcitadas com a abundância de tinder e bumble e hinge…os celibatários por saberem estar arredados de companheirismo não calculista, por parte dos objectos de desejo, objectos caprichosos e ardilosos, que tiram partido do que podem, dos argumentos de que todos os homens violam e matam, e que por isso qualquer homem é assassino e violador e tem de aquiescer ao quer que seja que a mulher diz. O modelo de existência humana é o da mulher, supostamente sentimental, de lágrima fácil e de empatia exibicionista. Mas mais profundamente, um sentimento de impotência por todos suspeitarem que este girl world, é também ele circunstancial, que mudando as circunstâncias, se volta de novo a instrumentalizar o que seja a definição de ‘masculino’ para servir os interesses da ‘maioria’. A mentalidade de carência de alguns, e o ressabiamento decorrente da divisão masculina em abusadores físicos e abusados mais sensíveis, impede qualquer concertação desta malta. Ao passo que as mulheres se defendem sem se conhecer, porque a nível instintivo sabem que defendendo outras, se defendem a si, que os direitos e mordomias coincidem. A conversa estava muito boa, mas a tipa tinha-se levantado e passeava o seu vestido azul escuro, por todas as tendas da festança, e ao verem-me calado e circunspecto, me interpelaram, sobre a opinião no assunto. Como nada tinha para dizer, pois deixo-me levar nestes temas, contei a história da tipa que se mijou no meu carro, por motivos ignotos, mas que se fosse homem, seria um daqueles despojados de savoir social. Só que basta usar saia curta e batôn rouge que desaparecem as inadequações. Contei também, que recentemente me contactara, que se dedicara ao espírito e ao desenvolvimento pessoal, que já não ligava ao sexo. Que me vira na rua quando passara de carro com a irmã e me achara ainda bastante jeitoso. E que me convidara a ir com ela passar férias, e que mediante perguntas certeiras, percebi que não era por saudades da minha pessoa, de quem não se lembrava do último nome, mas para poder partilhar as despesas na costa espanhola virada para o Mediterrâneo. Como não adiantei mais, um silêncio desceu sobre o sentido das minhas palavras e do relato. Nesse silêncio vieram-me à memória todas as minhas memórias de inadequação em tempos passados, e a decorrente vergonha interiorizada, por causa delas. Daquelas caras de asco a mim, por cachopas que me rejeitavam a abordagem, porque a seus olhos eu estava num patamar inferior ao seu. Por algum motivo uma força nelas as forçava a ir além da letra, rejeitando e prevenindo ambíguas interpretações. Associarem-se a mim, despertava uma força ignota e incontornável dentro delas, que agora percebo, tem a ver com o não baixar o valor da sua própria auto percepção, e da percepção do seu valor social pelos outros. Nada teve que ver com uma suposta falta de valor ou aparência física da minha parte. Nada teve que ver com uma inadequação que eu conseguia esconder a início e que o olhar mítico e mitológico da fêmea colocava a nu, e confirmava a mim mesmo a fraca opinião sobre mim mesmo. Ó iniquas lucubrações. Um mecanismo repetido em organismos distintos, apenas disfarçado e unificado pelo meu próprio olhar, a partir de uma vergonha tóxica de mim mesmo. Desfeita a ilusão de a gaja ser feita de um barro superior, desfazia-se também a ideia da minha inadequação, como castelo de cartas, ao qual se retira uma carta na base. Desmistificando a gaja, salvava-me a mim. ‘Elas’ salvavam-se a si, sacrificando-me a mim, com a sua rejeição. Porque o inadequado é muito raro ter lugar na natureza. Elas são inimputáveis, quase sem agência que não se exprima no teor mais ou menos polido, com que rejeitam. Quando são mesmo cabras, quando são simpáticas. E eu sempre desejei, e me esforcei, para conhecer o mecanismo, e não sei se valeu a pena, porque tenho de perguntar se não foi tarde demais. Se não teria valido mais a pena, ter escolhido a felicidade em vez da verdade. Ser diferente e resistir a ser como o que é ‘normal’…leva a uma bifurcação, ou aquiesces, ou rejeitas até que a morte te leve. Mas até este é um falso problema, porque ser ‘diferente’ não é o ónus da questão. É ser valorizado, por ter valor simbólico ou instrumental. Por elevar o valor social de outros. E por este ponto, não só as vejo agora como inimputáveis, como sem qualquer agência, o que por vezes me faz perguntar se não são todas drones umas das outras. Não enquanto entes humanos, mas no seu firmware em relação ao que é ou não considerado atraente e passível de ser amável. Gostam de brilho é só. E o que mais dói, é mesmo o tempo que perdi a censurar-me e a melhorar-me para ‘elas’, pensando que eram algo mais que o que são, por delas tanto gostar. Ou precisar. Como aquelas que nas primeiras semanas de namoro, te gabam à tua frente, de forma abundante, até que percebes que não é bem para que ouças, mas para se convencerem a si mesmas. Fico ao mesmo tempo aliviado, por ter percebido, mas chateado porque só percebi…agora. Mas já sabia que a sapiência chega por vagas, como ondas de uma maré que está a encher. Até que deixas de ter pé, e morres. Perdendo-as como algo mistificado, lamento agora não as poder amar, ou por elas me fascinar o suficientemente ao ponto de criar laços emocionais. Mas ganhei-me a mim. Acho. Mas nem isso consola. Com os mais velhos que eu não consigo falar do mecanismo, com os mais novos, vejo-os a cometer os mesmos erros, animados pelas mesmas forças que por eles irrompem, sem poder dizer-lhes o quer que seja, pois são raros os praticantes de introspecção. Por mais vezes que o Homem finja ir ao espaço, ou que andemos todos aqui com mantras de inclusão e prémios de participação para todos, a irrevogável lei é que uns nascem com o cu virado para a Lua, e outros não. Uns são abençoados com um quid que gera apreciação nos outros, outros são tão monocórdicos como um bafiento tédio de existir. Sem culpa ou responsabilidade na coisa. Putéfias de instagram exigem ‘neurodiversidade’ que é outra palavra para ‘emanador de emoções’, aos prospectos de cobrição futura. Pobres farrapos que pouco mais são que caixa de ressonância dos clichés hodiernos. Repetem o que ouvem as outras dizer, vestem o que observam outras vestir, pensam, como pensam as 5 amigas mais chegadas do seu grupo de ‘apoio’. Fingem amizade por via de fotos acompanhadas da canção da Cyndi Lauper, de que as raparigas só se querem divertir. Como se os rapazes só se quisessem deliciar em pensamentos tristes e amargos. A mesma edificação acéfala de uns sobre outros sob o camuflado da igualdade, até porque a puta da música original até foi escrita por um gajo, mas o que interessa é o aspecto, a aparência, a ideia simpática. Dou por mim, e havia dito os meus pensamentos em voz alta. O silêncio à minha volta, exprime a ruptura de uma ideia prévia que tinham de mim, como dominante sobre as reacções de mim mesmo. O não dominante equivale a fraco. Levado por um ejacular de frustração incriminatório. Que se foda, finalmente, a sério, que me interessam as opiniões de outros acerca de mim. O sombrio da coisa é que foi deitada ao chão, isto é, ninguém recolhera, eu nisso acreditava, um pintelho do que eu inadvertidamente confessara, após anos de cogitação. E detestei o que potencialmente dissera. Gosto de mulheres e dos indivíduos por detrás, a braços com o títere que confundem consigo mesmas. Não consigo metê-las todas num grupo, porque sei que são diferentes, apesar de iguais em quase tudo. Sujeitas às mesmas determinações, apenas com uma convicção própria que impede gajos como eu, relativizar. Tipo, como quando jogava à bola e levava uma trancada, não conseguia evitar dar logo uma a seguir, na jogada seguinte, senão esquecia-me. À entrada vira uma mesa, de couro vermelho gasto, onde snifavam coca e comiam chouriço assado, deixei o grupo e dirigi-me para lá. Porque a branca não me engana, sinto sempre que há merdas mais elevadas que esta merda aqui onde estagnamos.
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