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Fidelidade de metrónomo

14/9/2025

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Fotografia
Dizem que não é justo.
Que não mudei  nada, ó meu Deus, como é possível.

Voltam submissas, mas com a submissão soterrada de arrogância, explícito e falso amor próprio, para disfarçar o cheiro do desespero.
E claro, como pensam que todos os homens são infra humanos, incapazes de perceberem o prodigioso trabalho das suas lucubrações, são também alvos fáceis dessa sofreguidão pela vida traduzida numa nova paixão reaquecida, ou um reaproximar por algo que geralmente falhou e não é culpa delas, como por exemplo, terem ido à sua vida assim que um que acharam melhor, meteu a pila para fora à distância de miragem de oásis.

Como gatos baralhados pelos dois pontos de laser na parede, alternam entre ambos, inebriadas pela suposta vida que marcha tempo fora até ao fim. Fim da luz, onde outros e outras cá estarão para brincarem nas suas paredes de igual forma.

Proibi-me de ficar zangado com aquilo que pode ser descrito como desplante ou falta de vergonha, Gaja actual, desconhece o que seja ética, como toca comportamental que se habita. Não, ética é o que parece bem à maioria, e então camarada, se conseguem justificar por A mais B  que estão sempre na posição correcta do dilema, isto é, se nunca são responsáveis do quer que seja de menos bom, ui, então sentem-se sempre...'éticas'.

Deixei-me disso. A última vez que me chateei, foi quando a  Sophie, uma norte-americana em Erasmus, me tocou à porta das Águas-Furtadas, a pedir 50 euros.
O desplante da tipa, deixou-me sem palavras num entardecer chuvoso e cinzento, em que passava o tempo  a ver a chuva a cair e as águas do braço -de-mar em frente da minha janela, a gelar para o Inverno que se avizinhava.

«-Posso entrar?» , arranhou ela num português macarrónico, que me telegrafou um esforço, faltando saber apenas o que queria.

50 euros que estava 'short', para comprar o passe social naquela zona, que dava para o país inteiro. Sei que veio a pé ter comigo, porque tinha o nariz roxo e  os botins enxarcados de neve e lama.
Dei-lhe uma toalha, e despejei brandy num copo que coloquei na mesinha em frente à lareira, onde mal cabem dois a ver o lume, senão estiverem encostados um ao outro.

Perguntou-me se eu tinha estado a chorar. Creio que me viu os olhos vermelhos. Respondi que sim, e ela não conseguiu disfarçar uma reacção de comprazimento momentâneo imbuída da ideia de que o meu sofrimento viria do comportamento dela para comigo.
Apanhando o rabo da ideia, disfarçou-a teatrializando uma contrição forçada dos seus pecados para comigo. Que nalgumas coisas se achava culpada, mas que noutras eu tinha um feitio. Se fosse portuguesa, diria que tenho um 'feitiozinho'. Não sendo, não usa diminutivos com preocupação de minimizar a adjectivação.
Ia brincando com as unhas em frente à lareira, para que eu a visse encostado à janela, e a imagem era bonita, e verdadeira, não fosse o seu  pantomineiro agir.
Como canário que morre, como tarde que parte, senti uma nostalgia de todos os momentos bons e simbólicos ainda presentes na minha memória e reconheci aquele em especial, como um dos últimos cartuchos antes de dizer a Deus, '-Toma, está aqui, obrigado por me teres deixado usar a minha alma, mas sem corpo agora, já não preciso. Está lavadinha e engomada.'

Era o ocaso que me acenada de lá  em diante.
Ela percebeu que eu não estava a receber a sua mensagem, quanto mais a comer. 
Foi aí que a interrompi.

Comecei por dizer com cuidado, para não dar ângulos morais que pudesse voltar contra mim, que era preciso uma lata para me contactar de novo.
Que fazia um ano, e tinha-me dito em Janeiro que me amava, e em Fevereiro, viajado para o Dubai, a convite de um gajo qualquer. Que nem me avisou e que só descobri no Instagram, depois de dezenas de chamadas rejeitadas por me ter bloqueado o número.
Quando deixou de ser novidade, o tipo, passou para outro brinquedo novo, e ela lá se lembrou que eu existia para lhe pagar a viagem de regresso com escala na Polónia.
Que quando chegou, nem um telefonema a agradecer a transferência.
Perguntei-lhe onde é que isso era consequência do meu feitio.
Encurralada, defendeu-se atacando. Inventou que eu não lhe dava o tempo e atenção suficientes e que isso a fizera concluir que não gostava assim tanto dela e que ir para o Dubai, foi uma maneira de me esquecer.
As palavras em inglês saíam e eu não conseguia conter o meu riso abafado por um esforço de compostura. Até porque a minha indignação pelo gaslighting dela emergia com  mais força a cada vocábulo.
Realmente pensam que um gajo é estúpido. Deixei-a a falar sozinha e de novo o meu pensamento melancólico vogou pelas lembranças de todas as vezes em que fui comido com estas tácticas, onde nos visam calar com a inversão do ónus de culpa,  e o momento onde tal macaquice já não colhia comigo. 
Irritada por perceber que o esforço de racionalização do seu comportamento era desperdiçado em ouvidos extraneados do seu esforço, levanta a voz e tenta exemplificar que foi por estas atitudes que a fizeram esquecer-me, na cama de outro.
Ri-me de novo, não conseguia evitar. Mas lembrava-me que ela me achava mesmo parvo. Creio que é normal, quando as validamos com beijos e abraços e nos observam  entregues de forma íntegra, acham que somos uns pobres de espírito por não termos maldade em grau comparável. Levantei-me, fui à carteira, tirei uma nota de 50 euros e  fui na direcção dela, para a colocar na sua mão estendida. Quando estava quase a pegar nela, retirei a nota de repente, passei por ela e pousei a nota em cima dos lençóis frios desde as 9 da manhã, quando me levantei. Amarrotados e meio húmidos ainda dos pesadelos que me fazem suar durante a noite.
Voltei para a cadeira à beira da janela.
Ela ficou a decifrar o meu comportamento, e interpretou que eu a estava a testar de alguma forma.
Aproveitou para fazer uma barracada, que não admitia que eu a tratasse como prostituta, quem pensava eu que ela era, e todos os lugares comuns destas ocasiões das pessoas a serem pessoas. Que nunca fora assim tratada, que eu era um merdas ('Little Deep Shit'), ventilando toda a auto percebida humilhação de ter feito o esforço de vir à presença de um gajo que não respeitava, pedir dinheiro.
Eu não disse uma palavra.
Observava. 
Aliviada, as rodas dentadas da sua consciência deram-lhe outra perspectiva que não tinha visto a início. A nota na cama não era insulto, mas oportunidade. Podia fidelizar-me mais uns meses, fazer o esforço e acalmar a sua vida, ir regularmente às aulas de pintura na faculdade, que eu a acordava sempre de manhã, sabendo o quão difícil era levantar-se cedo.
Dormir no meu alojamento universitário que emprestam aos docentes convidados, nos dias de borga, geralmente à 6a feira, onde me aparecia aqui e me arrancava da secretária para dançar com ela, tresandando a vodka com sumo de limão, e nunca largando os sapatos de salto alto que as anglo saxónicas gostam de usar ao ombro, quando caminham descalças pelas ruas. Era verdadeira apreciadora dos 'spring breaks', com todos os trejeitos que detesto nelas, especialmente as unhas compridas e os dedos unidos pelas pontas, ao falar, sempre como os putos faziam em Portugal os 'nhecos'. 
Mas na cama abraçava-me a sério de forma tão genuína que era a única coisa que fazia esquecer tudo o resto.

Quando percebeu a oportunidade de investimento a médio prazo, afastou-se da porta de saída, e largou o clássico, 'contudo, nunca deixei de pensar em ti...'
Foi desapertando o 'kispo' e depois a camisa, e mostrava com orgulho as carnes imbuída de uma certeza de que todos os apartados éticos que eu pudesse objectar,  desceriam como vómito de ébrio pelo cano abaixo, como se a nudez fosse autoclismo.

Quando me levantei o seu olhar de triunfo, por confirmar duas crenças, de não lhe resistir aos encantos e de ser realmente um papalvo, revelou-se cabalmente.
Estando de perfil para exaltar a curvatura do seu bem torneado rabo adornado por um rendado fio dental, não me viu passar pela carteira e retirar uma outra nota, convencida de que eu ia em direcção a ela para a abraçar e beijar.
Olhou-me surpresa quando me dirigi à cama, peguei na nota que lá  estava, e agora sim, aproximando-me dela, juntei ambas e lhas entreguei, e disse que tinha mais 50 euros para duas coisas, para ir para casa de táxi, que não a queria a andar assim ao frio.
Surpresa e desiludida, perguntou-me : '-And the other one?'.
Respondi que era para ir já. Ficava com o dinheiro desde que saísse já.

Ficou em silêncio a olhar para mim.
Eu fiquei a rezar para que não aparecesse a Vicky, uma colega do trabalho que amiúde me aparece por aqui para revermos planos de aulas e formações.
Se aparecesse, reconfirmaria as suas crenças, pois o homem só recusa sexo e tem ética, quando está satisfeito no plano carnal, com outra vulva disponível.
Somos uns básicos.

Fui colocar um disco , triste de Beethoven, e sentar-me de novo à janela, enquanto ela se vestia.
Pedia a tudo que não me dissesse nada e desaparecesse da mesma maneira que desapareceu quando achou que a vida lhe lançara um osso, há um ano atrás. Sem uma palavra.

Assim fez. 
No meio da nostalgia, estava a sentir-me feliz.
Mas obviamente, a felicidade não dura e tocam-me de novo à porta.
Era ela, e quando me viu de novo a cara, perguntou se eu estava zangado com ela.
E eu respondi, claro que não. Nunca poderia estar zangado com ela.
Perguntou porquê,  e eu respondi, que nunca poderia estar zangado com alguém a quem devia gratidão por ter retirado da minha vida, alguém com pouco carácter.

Desviou os olhos para o lado, como que a tentar passar a ideia de uma rejeição da minha frase abjecta,  que a visava directamente, mas ao chegar ao último degrau do segundo piso, cruzou-se com Vicky, e um monte de pastas ao peito, mesmo no momento em que eu fechava a porta e interrompi o fecho. 
Ambas se olharam e fizeram as suas leituras, uma a pensar se eu tinha comido a outra, e a outra a pensar se eu andaria a comer esta. Ambas  pareceram ter ficado agradadas com a ideia, apesar de eu não ter comido, ou de tal ter intenções, nenhuma.

A Vicky queixou-se de que me ligara para o telemóvel e estava desligado.
E eu comigo a pensar, que só isso seria um bom indicativo de que eu queria estar sozinho.
Creio que a Vicky decidira que eu era um item a comer, e portanto cumpria a sua nórdica parte.

Eu olhava para o disco do Beethoven a girar, e lamentava para dentro sobre as sinuosas definições de felicidade consoante o contexto.
Passou-me pela ideia meter uma nota de 50 na cama.

​Mas esta ainda não me tinha feito mal nenhum.

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