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Hóstia

25/10/2025

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Fotografia
Os amigos em comum iam-me dizendo que ela estava feliz como nunca.
Certo dia, ligou-me até, dizendo-me que nunca conhecera ninguém tão romântico como ele, que lhe compusera um fado em homenagem ao ‘rosto aquilino e pálido em dias de Inverno’.
Li o poema, uma cagada publicada em website de casa de fados para enganar turistas que passam por Alfama.
Nada lhe conseguia responder de volta, do outro lado do meu Motorola, em choque com a brutalidade da natureza humana de primata.
Então arrefoda-se, eu compus resmas de interpretações sobre a dicotomia ente ‘The English patient’ e ‘Lune de miel, lune de fiel’, deixei-lhe pequenas quadras em todos os bolsos de blusas de viscose que tinha no guarda-roupa, dizendo-lhe o quão especial era entre os oito mil milhões de almas que povoam o aquário de formigas de Deus nosso Senhor, e era um cabrão de um fado sobre a ‘camélia enjeitada’ que lhe roubara o coração?
Foda-se, lembrei-me do refrão da tropa, ‘mais vale cair em graça que ser engraçado’.
Caralho.
Mas isto é uma constante.
E tão certinho como a morte.
Tão certinho como me contentei com ela, mesmo comparada com a Binoche enfermeira a quem morriam todas as pessoas que amava, no filme. Via-me como o entrevado futuro, interessado no infinito do deserto e da literatura antiga, com colhões vazios e felizes, por adesão ao objecto de amor.
Fantasia de um puto de 20 anos trocado por um bom balanço bancário.
Isto, que nunca consegui, aceitar, dada a minha natureza idealista, e por isso, romântica. Sem lamechices de pseudo intelectual francófilo, que lhe deram, aos franceses, má fama.
O filme, apesar de bonito, é uma cagada lógica. Nada como o livro. Mas mais arrebatador, e menos inspirador.
Quando o vimos no cinema, ambos alunos de Filosofia em Lisboa, eu saí do cinema Londres, desejando ser Almasy para comer no Bósforo, dia após dia, a senhora Clifton, e ela saiu pedindo que a levasse a comer a algum lado.
Mais tarde apenas, percebi que a exploração geográfica no filme, era exclusiva da aristocracia europeia, e que o carácter romântico no meu indivíduo amado, se reduzia a promessas de submissão e adoração.
Tal como canções pimba, onde com voz de cabra mendicante, o narrador diz que moverá mundo e arredores pelo objecto de amor.
Arrefoda-se.
A enfermeira Binoche luta contra a morte, para poder continuar a viver, amando.
Eu bloqueava da minha visão, os defeitos da minha adúltera Clifton.
Mas o filme remetia para uma idade tão promissora, obviamente, para alguns. Esquecendo a maior parte dos que laboravam em minas, de carvão, de pedra, dos quais eu havia visto, em mergulhos nas entranhas de cargueiros, o fruto do trabalho infantil, em forma de ladrilhos rectangulares, que guardo na minha secretária de arqueólogo.
Em cada momento de felicidade, há uma sombra de morte e sofrimento, dizia-me a luta de classes ao ouvido.
E isto que a ver com o meu ido amor, apaixonada por fadista brasonado?
Mais vale cair em graça que ser engraçado.
Tal como o cabrão do Almasy, também a roubara de outro. Sentira uma atracção tal que não conseguira resistir.
Ela, convencida aos 22 anos, que percebia como funcionava o mundo, achara graça encontrar-me em todas as feiras de antiguidades em que me encontrava, sem saber que eu passava noites em claro em frente ao seu quarto alugado em Lisboa, a nossa Lisboa, à espera de lhe conhecer os hábitos. Afogado em café, afogado em morfina.
Quero lá saber se ela era criminosa de guerra, venderia na mesma a alma ao Diabo, pelo sabor dos seus lábios, nem que durante 30 segundos numa vida de 300 anos.
 
Tanta merda simbólica e era um fadista falhado que lhe enchera as medidas? Que ia aos fins-de-semana tourear touros para a Moita?
Arrefoda-se, mais vale cair em graça que ser engraçado.
Chamava a minha Mãe, para vê-la na cama futton que comprámos na extinta Moviflor para o meu percurso académico, para ver o querubim adormecido e escorraçado pela família de alta burguesia, dormitando de uma longa jorna de estudo na faculdade de Nemésio.
Minha Mãe enternecia-se e fazia-me jurar que a trataria bem.
Em casa dela, da mãe dela, passava fome, pois a filha do ex 3º maior produtor de café em Luanda, não alimentava ‘marmanjões’.
Tinha um medo insano de gajos que se podiam aproveitar de riqueza herdada.
Tratava-me como um tolinho útil que lhe enfeitiçara a filha, que sabia um pouco de tudo, mas que valia um pouco menos que nada.
O meu valor era instrumental, igual ao que a filha acabaria por me dar, por saber mudar cartões GSM de telemóvel, e de configurar SMS.
Que a plebe sempre teve uma utilidade.
Dizia que eu era um pequeno génio, em tudo e na escrita, mas respeitava mais o genro semianalfabeto que tinha, por via dos pais, uma cadeia de hotéis na Suíça.
Arrefoda-se.
Esta malta que pensa orientar-se pela meritocracia, medindo-se por mediocracia hereditária.
Estamos falados em termo de luta de classes. E não é que ELA se deixou levar pela conversa?
O prémio ido, prenhe de dúvidas, fê-la optar por contabilista estabelecido. Por personal trainer do Holmes Place, e por uma fila de gente longe de tudo o declamara querer, gente inebriada pelas Letras.
Como podem anunciar algo de tão diverso daquilo que realmente querem, perguntava-me eu, do alto das noites passadas a observar o seu quarto na Almirante Reis, enquanto fodia com outros.
Porque é que há uma diferença entre o verbalizado e o concretizado nesta malta XX?
Seria eu? Seria o XY e o after-shave escolhido?
Seria ter-lhe escolhido pizza pepperoni em vez de queijo com caruncho porque a mãe não queria alimentar marmanjos?
Que caralho fizera eu, para merecer o hiato entre o afirmado e o feito?
Tarde alguém me explicou fazer o logro parte do jogo.
A minha mente lógica e idealista não me permitia perceber claramente o que outros percebiam indutivamente.
O maior aliado do gajedo é precisamente o idealista.
Queixava-se dos minetes que lhe fazia. Que ficava com infecções urinárias de bradar aos Céus.
Um personal trainer passou-lhe um esquentamento que tomou como medalha de guerra.
Mais vale cair em graça que ser engraçado.
Passei a perguntar-me se valia a pena persistir numa luta onde ia armado de fisgas para tiroteio.
E depois dizem que os homens são uns cabrões.
Mas preferi morrer no deserto em virtude de queimaduras de guerra.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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Escória

24/10/2025

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Fotografia
Consta que morreu chorando à chuva.
Os médicos gracejaram, que por falha cardíaca.
Nenhuma das suas serôdias vinganças alguma vez se concretizou.
Tornar-se um grande escritor que fizesse as pessoas pensar e salivar com a sua prosa.
Para que as mulheres que o rejeitaram, essas putas hipergâmicas, ficassem a chorar baba e ranho por terem cuspido no prato um dos grandes das letras portuguesas.
O sonho de qualquer escória na atenção feminina.
Um dia vais ver, volto a ser rico e importante, ou famoso e notório.
Vais ver.
Mesmo depois da morte, que toda a rejeição é um óbito, continuam a sonhar com elas, ainda que sejam estas vingançazinhas.
O amor não se transmuta em ódio, com o fim. Não. São exactamente o mesmo, reacções emocionais à existência de outro.
O contrário de ambos é o esquecimento ou a indiferença, que vão dar ao mesmo.
Não, eles continuam a amá-las até ao fim, e nem sei sequer, se não é isso que os leva mais depressa.
Como âncora atada no artelho de um nadador.
Que se cansa, às tantas, de se manter à tona, e passa a afundar-se vencido, no abismo longe da luz e do oxigénio, em direcção ao seu próprio ocaso, onde...no último mesmo último momento de consciência, neste mundo, ainda se indaga se a profundeza abissal onde morre, é onde restam as memórias delas, as putas que o rejeitaram e abandonaram, de si.
Como se o escuro silencioso e pleno de mandíbulas ignotas que defecarão no seu cadáver, fosse o lugar para onde elas largam as memórias dos momentos de amor partilhados, como quem abandona peixe de aquário pela pia abaixo, para o mar profundo em direcção ao centro da  Terra.

Com umas ceroulas e a pele enrugada pela prolongada exposição à água, é colocado na maca que o leva à autópsia.
Como amigo fiel, mas nem sempre presente, acompanho o corpo e trato dos pormenores da campa rasa.
Não reconheço o cadáver, comido por dentro.
Ele queixara-se em tempos de uma esofagite, que o assolava à noite quando se deitava de lado, em cima do coração.
Pensara que eram os sinais do fim do músculo cardíaco. O médico sossegou-o, enquanto o esfíncter do esófago vedasse, era apenas um incómodo.
Não eram palpitações como temia.
Contracções involuntárias de um músculo em agonia e descompasso.
Era só o esófago a reclamar das noites de  álcool para esquecer, ou poder dormir.
Uma dança abaixo da traqueia e perto do coração, como cobra sem cabeça que teima em não parar.
Meteram-lhe o caixão à cova e apenas eu lancei uma rosa negra, antes de o cobrirem.
Sei que gostava de coisas lúgubres, e foi uma  última forma de o homenagear, porque malta que gosta de coisas dessas, geralmente é lúcida e ligada ao fascínio que a vida oferece quando os olhos andam abertos.
Que é outra maneira de dizer, que quando nos libertamos do egocentrismo, começamos a ver melhor as coisas...e decorre, enquanto limpo uma lágrima, que se é assim, as gajas são todas cegas. Daí ter morrido este gajo, de desgosto, por gente que dele não era merecedora.
Antes de me dignar a ir embora, alguém chega.
Gótica, pelas botas da tropa e lábios pintados de preto, vem séria e atrasada.
Atraso-me um pouco mais, sentindo-me como anfitrião.
Ela nem me vê, apesar de estar em frente a ela.
Bom sinal, é indício de que para ela, ele, era mais importante que as convenções sociais do parecer, ou da consideração com os vivos, ainda que remotos, por contraposição aos idos mortos.

Curiosamente, lança também uma rosa negra, e eis que desata a chover. Creio que tão copiosamente como no dia em que ele morreu à chuva.
Olho para cima, quero ver qual o Céu que me ofende.
'-Como é que ele morreu?'
Quando olho para baixo, tenho-a defronte mim.
Vejo-a desfocada, com  os gordos bagos de água aterrando em cheio nos meus olhos abertos.
'-Ninguém sabe, os médicos disseram que morreu de falha cardíaca, foi encontrado seminu na rua, à chuva e deitado no chão. Quando chegou a ambulância já não tinha pulso, parece.'
Ela olha para a campa, desviando os olhos de mim, e diz : '-Ele morreu de desgosto.'
Foda-se.
Não fazia ideia de quem ela era, acreditei que alguém do passado dele, que não me contara. 
Mas este nível de intimidade acerca dele, levou-me a acreditar que era uma daquelas pelas quais, todos acabamos mortos a chorar na rua.
Respondo: '-Sim, também acho que sim. Muitos acreditam que é emocionalismo barato, mas estes apegos superam a vida, e mostram a verdadeira força de carácter de alguém. E ele era mesmo uma estrela nesta merda.'
'-Que se fodam esses merdas.' - disse ela, de imediato, como se soubesse de quem eu estava a falar.
Deduzi, que pelo seu aspecto de gótica, falaria de todos os que julgam os outros, de acordo com alguma norma que considerem ser A norma.
Da mesma forma que as prostitutas chamam 'quadrados' aos que vêm do mundo dos clientes, como forma de despeito para quem as usa, mas não partilha a sofisticação ou uma sapiência fatal sobre a existência.
Coloca-me a mão no ombro, mira-me de alto a baixo e exclama, vinda de um lugar de convicção de que eu falava a mesma língua:
'-Vamos foder. Não tenho feitio para me entregar ao desespero, e tenho de ocupar a cabeça com outra coisa.'
Que raio de gajo seria eu, para no funeral de um amigo meu, me meter na cama com alguma gaja que lhe partira o coração?
Olhei-a também, saia xadrez escocês, rabo de cavalo espartano e uma tatuagem com o símbolo do infinito no pulso. Olhos pretos como o cabelo e os lábios berrantemente vermelhos. Branca como farinha, e peitos pequenos.
Tinha no bolso a chave de casa dele.
'-Sim, vamos. Vou-te comer à bruta.'
Não sei porque disse isto. O automatismo, quase me fez perder a vontade que entretanto me crepitara no sangue, sempre que o assunto é para a cueca.
Esboçou um sorriso amarelo, de desilusão, como se a tivesse desiludido, mas apenas um sentimento de missão justificasse o sacrifício.
Fechada a porta atrás de nós, reparei no topo da lareira, na fotografia dela , em lugar de destaque, em frente à poltrona onde se afogava em gin.
Antes que pousasse as chaves de casa e do carro na cómoda coberta de livros, já ela me tirara a roupa, deixando-me de ceroulas e encharcado em frente à lareira.
Despiu-se também e foi direita à casa-de-banho, ao que fiquei a sentir o soalho com os pés, a indagar se me  iria beijar, ou puxar directamente para cima da cama.
Fechei os olhos e tentei perceber toda a minha fraqueza moral e sexual nesta situação.
Quando os abri tudo estava escuro, comprimido, silencioso e mandíbulas ignotas pairavam em meu torno.
A cada lembrança pedaços de mim desapareciam engolidos por bicheza que me consumia. Ao longe, uma pequena luz, que alumia a imagem da foto do seu rosto, como isco e engodo da morte por mil memórias não correspondidas que me afogaram de mágoa, na rua, num dia de chuva e coração infeliz. 
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