|
Este fenómeno em massa das redes sociais, onde vivemos uns com os outros como pedaços de cadáveres nas vitrinas dos talhos, criou um vírus na forma de estado de espírito, chamado ‘hookup culture’, que para português escorreito seria traduzido por ‘cultura do engate’, só que não é. Ou pelo menos, não é o engate tradicional, onde o próprio termo, ‘engate’, sugeria que o agente enceta um conjunto de acções que põe em marcha algo no passivo, ou ‘agido’, ou tocando uma melodia divina que o mete a ‘dançar’ ou pedindo para dançar abertamente, e com bons modos. Não. É toda uma outra coisa. A irmã dela criara-lhe o perfil. Com fotos dos melhores ângulos, e com um treino prévio de que tens de viver a vida, e estes gajos não valem nada senão pelo corpo que lhes usas para te esporrares toda se quiseres. O poder é teu, vê bem que, mesmo feia e com uma orelhas de Topo Gigio, indicadoras de má saúde e falta de stamina, podes escolher no meio da multidão anónima que aspira por um momento de intimidade com um novo corpo. Sem sentimento de urgência, a mulher feia, ou melhor, a mulher amaldiçoada com a ausência de simetria facial…sim, porque ter uma cara bonita basta, voa no topo das nuvens deste mundo do século XXI. Tanta opressão e tanta patriarquia, que as gordas, as marrecas, as ordinárias, no sentido de nada terem de realce que não uma vulva que aguarda, assumem contornos de divindade por parte de uma multidão voraz, de gajos casados, solteiros e outros filhos da puta, que te matariam a ti e a mim, por um pouco de validação feminina. A chuva cai no pavimento lá fora, e ela insiste em que vá ter com ela, num programa de música e teatro, que não quero começar. Conduzo-a para um café na Expo. A cada toque meu, fingido como casual, reage como que se recusando a intimidade, a cinestesia, iniciada a partir de mim, como se eu tivesse peçonha, ou fizesse as fronhas cheirar a ranço osmótico da pele a caminho de uma qualquer decrepitude. Rio-me para dentro, e sou extra simpático, extra agradável, extra complacente. Espero que entre no carro para eu ir para casa beber a cerveja do OktoberFest que me aguarda. Não é que eu me sabote a mim mesmo, como achava há uns anos atrás, é porque me sujeito a estas macacadas para manter viva a percepção de como estão as relações entre as pessoas, e confesso, de cada vez que comprovo, me lamento ao Céu de que não estou a conseguir lidar? Havia algo de mais ingénuo e apreciador do outro, não consigo deixar de pensar. Parece que agora, o outro é algo redutível ao que me é cómodo. E por isso sensabor. Não nutre. Recebo o convite para ir a casa dela beber chá. Eu não quero, ela não me atrai, pese embora seja ou pareça ser um pobre diabo como eu. Percebo, olhando-a, como pode uma mulher olhar para um gajo normal e não lhe sentir desejo. O meu ego protege-me e diz-me que sou o maior. E sou, mas isto é uma situação não agradável. Como me vê renitente, saca-me do marsápio e faz-me um broche à anos 30. Que raio de suplício para não lhe ofender os sentimentos. Sujeito-me a mim mesmo para não lhe magoar os sentimentos, e é já quando saio pela porta do quarto que ela me diz para não fazer barulho nas escadas por causa dos vizinhos. E eu aqui à espera de um quero acordar contigo, ou quero ver-te o mais depressa possível, e o que lhe escorre é que sou uma paragem na viagem de autocarro. Sinto-me velho, porque não me adapto. E aqui entre nós, porque não me quero adaptar. Vive la rainha.
0 Comments
Leave a Reply. |
Viúvas:Arquivos:
Novembro 2025
Tori Amos - Professional Widow (Remix) (Official Music Video) from the album 'Boys For Pele' (1996) - todos os direitos reservados:
|