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Consta que morreu chorando à chuva. Os médicos gracejaram, que por falha cardíaca. Nenhuma das suas serôdias vinganças alguma vez se concretizou. Tornar-se um grande escritor que fizesse as pessoas pensar e salivar com a sua prosa. Para que as mulheres que o rejeitaram, essas putas hipergâmicas, ficassem a chorar baba e ranho por terem cuspido no prato um dos grandes das letras portuguesas. O sonho de qualquer escória na atenção feminina. Um dia vais ver, volto a ser rico e importante, ou famoso e notório. Vais ver. Mesmo depois da morte, que toda a rejeição é um óbito, continuam a sonhar com elas, ainda que sejam estas vingançazinhas. O amor não se transmuta em ódio, com o fim. Não. São exactamente o mesmo, reacções emocionais à existência de outro. O contrário de ambos é o esquecimento ou a indiferença, que vão dar ao mesmo. Não, eles continuam a amá-las até ao fim, e nem sei sequer, se não é isso que os leva mais depressa. Como âncora atada no artelho de um nadador. Que se cansa, às tantas, de se manter à tona, e passa a afundar-se vencido, no abismo longe da luz e do oxigénio, em direcção ao seu próprio ocaso, onde...no último mesmo último momento de consciência, neste mundo, ainda se indaga se a profundeza abissal onde morre, é onde restam as memórias delas, as putas que o rejeitaram e abandonaram, de si. Como se o escuro silencioso e pleno de mandíbulas ignotas que defecarão no seu cadáver, fosse o lugar para onde elas largam as memórias dos momentos de amor partilhados, como quem abandona peixe de aquário pela pia abaixo, para o mar profundo em direcção ao centro da Terra. Com umas ceroulas e a pele enrugada pela prolongada exposição à água, é colocado na maca que o leva à autópsia. Como amigo fiel, mas nem sempre presente, acompanho o corpo e trato dos pormenores da campa rasa. Não reconheço o cadáver, comido por dentro. Ele queixara-se em tempos de uma esofagite, que o assolava à noite quando se deitava de lado, em cima do coração. Pensara que eram os sinais do fim do músculo cardíaco. O médico sossegou-o, enquanto o esfíncter do esófago vedasse, era apenas um incómodo. Não eram palpitações como temia. Contracções involuntárias de um músculo em agonia e descompasso. Era só o esófago a reclamar das noites de álcool para esquecer, ou poder dormir. Uma dança abaixo da traqueia e perto do coração, como cobra sem cabeça que teima em não parar. Meteram-lhe o caixão à cova e apenas eu lancei uma rosa negra, antes de o cobrirem. Sei que gostava de coisas lúgubres, e foi uma última forma de o homenagear, porque malta que gosta de coisas dessas, geralmente é lúcida e ligada ao fascínio que a vida oferece quando os olhos andam abertos. Que é outra maneira de dizer, que quando nos libertamos do egocentrismo, começamos a ver melhor as coisas...e decorre, enquanto limpo uma lágrima, que se é assim, as gajas são todas cegas. Daí ter morrido este gajo, de desgosto, por gente que dele não era merecedora. Antes de me dignar a ir embora, alguém chega. Gótica, pelas botas da tropa e lábios pintados de preto, vem séria e atrasada. Atraso-me um pouco mais, sentindo-me como anfitrião. Ela nem me vê, apesar de estar em frente a ela. Bom sinal, é indício de que para ela, ele, era mais importante que as convenções sociais do parecer, ou da consideração com os vivos, ainda que remotos, por contraposição aos idos mortos. Curiosamente, lança também uma rosa negra, e eis que desata a chover. Creio que tão copiosamente como no dia em que ele morreu à chuva. Olho para cima, quero ver qual o Céu que me ofende. '-Como é que ele morreu?' Quando olho para baixo, tenho-a defronte mim. Vejo-a desfocada, com os gordos bagos de água aterrando em cheio nos meus olhos abertos. '-Ninguém sabe, os médicos disseram que morreu de falha cardíaca, foi encontrado seminu na rua, à chuva e deitado no chão. Quando chegou a ambulância já não tinha pulso, parece.' Ela olha para a campa, desviando os olhos de mim, e diz : '-Ele morreu de desgosto.' Foda-se. Não fazia ideia de quem ela era, acreditei que alguém do passado dele, que não me contara. Mas este nível de intimidade acerca dele, levou-me a acreditar que era uma daquelas pelas quais, todos acabamos mortos a chorar na rua. Respondo: '-Sim, também acho que sim. Muitos acreditam que é emocionalismo barato, mas estes apegos superam a vida, e mostram a verdadeira força de carácter de alguém. E ele era mesmo uma estrela nesta merda.' '-Que se fodam esses merdas.' - disse ela, de imediato, como se soubesse de quem eu estava a falar. Deduzi, que pelo seu aspecto de gótica, falaria de todos os que julgam os outros, de acordo com alguma norma que considerem ser A norma. Da mesma forma que as prostitutas chamam 'quadrados' aos que vêm do mundo dos clientes, como forma de despeito para quem as usa, mas não partilha a sofisticação ou uma sapiência fatal sobre a existência. Coloca-me a mão no ombro, mira-me de alto a baixo e exclama, vinda de um lugar de convicção de que eu falava a mesma língua: '-Vamos foder. Não tenho feitio para me entregar ao desespero, e tenho de ocupar a cabeça com outra coisa.' Que raio de gajo seria eu, para no funeral de um amigo meu, me meter na cama com alguma gaja que lhe partira o coração? Olhei-a também, saia xadrez escocês, rabo de cavalo espartano e uma tatuagem com o símbolo do infinito no pulso. Olhos pretos como o cabelo e os lábios berrantemente vermelhos. Branca como farinha, e peitos pequenos. Tinha no bolso a chave de casa dele. '-Sim, vamos. Vou-te comer à bruta.' Não sei porque disse isto. O automatismo, quase me fez perder a vontade que entretanto me crepitara no sangue, sempre que o assunto é para a cueca. Esboçou um sorriso amarelo, de desilusão, como se a tivesse desiludido, mas apenas um sentimento de missão justificasse o sacrifício. Fechada a porta atrás de nós, reparei no topo da lareira, na fotografia dela , em lugar de destaque, em frente à poltrona onde se afogava em gin. Antes que pousasse as chaves de casa e do carro na cómoda coberta de livros, já ela me tirara a roupa, deixando-me de ceroulas e encharcado em frente à lareira. Despiu-se também e foi direita à casa-de-banho, ao que fiquei a sentir o soalho com os pés, a indagar se me iria beijar, ou puxar directamente para cima da cama. Fechei os olhos e tentei perceber toda a minha fraqueza moral e sexual nesta situação. Quando os abri tudo estava escuro, comprimido, silencioso e mandíbulas ignotas pairavam em meu torno. A cada lembrança pedaços de mim desapareciam engolidos por bicheza que me consumia. Ao longe, uma pequena luz, que alumia a imagem da foto do seu rosto, como isco e engodo da morte por mil memórias não correspondidas que me afogaram de mágoa, na rua, num dia de chuva e coração infeliz.
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Novembro 2025
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