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Os amigos em comum iam-me dizendo que ela estava feliz como nunca. Certo dia, ligou-me até, dizendo-me que nunca conhecera ninguém tão romântico como ele, que lhe compusera um fado em homenagem ao ‘rosto aquilino e pálido em dias de Inverno’. Li o poema, uma cagada publicada em website de casa de fados para enganar turistas que passam por Alfama. Nada lhe conseguia responder de volta, do outro lado do meu Motorola, em choque com a brutalidade da natureza humana de primata. Então arrefoda-se, eu compus resmas de interpretações sobre a dicotomia ente ‘The English patient’ e ‘Lune de miel, lune de fiel’, deixei-lhe pequenas quadras em todos os bolsos de blusas de viscose que tinha no guarda-roupa, dizendo-lhe o quão especial era entre os oito mil milhões de almas que povoam o aquário de formigas de Deus nosso Senhor, e era um cabrão de um fado sobre a ‘camélia enjeitada’ que lhe roubara o coração? Foda-se, lembrei-me do refrão da tropa, ‘mais vale cair em graça que ser engraçado’. Caralho. Mas isto é uma constante. E tão certinho como a morte. Tão certinho como me contentei com ela, mesmo comparada com a Binoche enfermeira a quem morriam todas as pessoas que amava, no filme. Via-me como o entrevado futuro, interessado no infinito do deserto e da literatura antiga, com colhões vazios e felizes, por adesão ao objecto de amor. Fantasia de um puto de 20 anos trocado por um bom balanço bancário. Isto, que nunca consegui, aceitar, dada a minha natureza idealista, e por isso, romântica. Sem lamechices de pseudo intelectual francófilo, que lhe deram, aos franceses, má fama. O filme, apesar de bonito, é uma cagada lógica. Nada como o livro. Mas mais arrebatador, e menos inspirador. Quando o vimos no cinema, ambos alunos de Filosofia em Lisboa, eu saí do cinema Londres, desejando ser Almasy para comer no Bósforo, dia após dia, a senhora Clifton, e ela saiu pedindo que a levasse a comer a algum lado. Mais tarde apenas, percebi que a exploração geográfica no filme, era exclusiva da aristocracia europeia, e que o carácter romântico no meu indivíduo amado, se reduzia a promessas de submissão e adoração. Tal como canções pimba, onde com voz de cabra mendicante, o narrador diz que moverá mundo e arredores pelo objecto de amor. Arrefoda-se. A enfermeira Binoche luta contra a morte, para poder continuar a viver, amando. Eu bloqueava da minha visão, os defeitos da minha adúltera Clifton. Mas o filme remetia para uma idade tão promissora, obviamente, para alguns. Esquecendo a maior parte dos que laboravam em minas, de carvão, de pedra, dos quais eu havia visto, em mergulhos nas entranhas de cargueiros, o fruto do trabalho infantil, em forma de ladrilhos rectangulares, que guardo na minha secretária de arqueólogo. Em cada momento de felicidade, há uma sombra de morte e sofrimento, dizia-me a luta de classes ao ouvido. E isto que a ver com o meu ido amor, apaixonada por fadista brasonado? Mais vale cair em graça que ser engraçado. Tal como o cabrão do Almasy, também a roubara de outro. Sentira uma atracção tal que não conseguira resistir. Ela, convencida aos 22 anos, que percebia como funcionava o mundo, achara graça encontrar-me em todas as feiras de antiguidades em que me encontrava, sem saber que eu passava noites em claro em frente ao seu quarto alugado em Lisboa, a nossa Lisboa, à espera de lhe conhecer os hábitos. Afogado em café, afogado em morfina. Quero lá saber se ela era criminosa de guerra, venderia na mesma a alma ao Diabo, pelo sabor dos seus lábios, nem que durante 30 segundos numa vida de 300 anos. Tanta merda simbólica e era um fadista falhado que lhe enchera as medidas? Que ia aos fins-de-semana tourear touros para a Moita? Arrefoda-se, mais vale cair em graça que ser engraçado. Chamava a minha Mãe, para vê-la na cama futton que comprámos na extinta Moviflor para o meu percurso académico, para ver o querubim adormecido e escorraçado pela família de alta burguesia, dormitando de uma longa jorna de estudo na faculdade de Nemésio. Minha Mãe enternecia-se e fazia-me jurar que a trataria bem. Em casa dela, da mãe dela, passava fome, pois a filha do ex 3º maior produtor de café em Luanda, não alimentava ‘marmanjões’. Tinha um medo insano de gajos que se podiam aproveitar de riqueza herdada. Tratava-me como um tolinho útil que lhe enfeitiçara a filha, que sabia um pouco de tudo, mas que valia um pouco menos que nada. O meu valor era instrumental, igual ao que a filha acabaria por me dar, por saber mudar cartões GSM de telemóvel, e de configurar SMS. Que a plebe sempre teve uma utilidade. Dizia que eu era um pequeno génio, em tudo e na escrita, mas respeitava mais o genro semianalfabeto que tinha, por via dos pais, uma cadeia de hotéis na Suíça. Arrefoda-se. Esta malta que pensa orientar-se pela meritocracia, medindo-se por mediocracia hereditária. Estamos falados em termo de luta de classes. E não é que ELA se deixou levar pela conversa? O prémio ido, prenhe de dúvidas, fê-la optar por contabilista estabelecido. Por personal trainer do Holmes Place, e por uma fila de gente longe de tudo o declamara querer, gente inebriada pelas Letras. Como podem anunciar algo de tão diverso daquilo que realmente querem, perguntava-me eu, do alto das noites passadas a observar o seu quarto na Almirante Reis, enquanto fodia com outros. Porque é que há uma diferença entre o verbalizado e o concretizado nesta malta XX? Seria eu? Seria o XY e o after-shave escolhido? Seria ter-lhe escolhido pizza pepperoni em vez de queijo com caruncho porque a mãe não queria alimentar marmanjos? Que caralho fizera eu, para merecer o hiato entre o afirmado e o feito? Tarde alguém me explicou fazer o logro parte do jogo. A minha mente lógica e idealista não me permitia perceber claramente o que outros percebiam indutivamente. O maior aliado do gajedo é precisamente o idealista. Queixava-se dos minetes que lhe fazia. Que ficava com infecções urinárias de bradar aos Céus. Um personal trainer passou-lhe um esquentamento que tomou como medalha de guerra. Mais vale cair em graça que ser engraçado. Passei a perguntar-me se valia a pena persistir numa luta onde ia armado de fisgas para tiroteio. E depois dizem que os homens são uns cabrões. Mas preferi morrer no deserto em virtude de queimaduras de guerra.
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