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Tínhamos combinado pelas 19 e 30, só em cima da hora percebi que o hotel onde ficara, era ali perto de mim. Fiz o velho caminho que conhecera outrora, onde novos prédios haviam nascido. O tempo passa que é uma merda assustadora, e um gajo quando tem 10 anos, cada mês leva uma eternidade. Ela avisa por mensagem, que está à espera à porta. Aproximo-me dela a 1 metro, sem que ela perceba que sou eu. Vestida à Obélix, com roupa larga a mascarar a perda de figura oriunda de má alimentação. Mas mantém a cara bonita, e cabelo tão fraco que parece velho à beira do abismo da calvície. Mas o rosto bonito safa-a, não disfarçando, apesar de tudo, a possível imaginação de como é a cara de seu pai, olhando para a sua fisionomia facial. Decidi descer a rua à procura de um tasco onde a levar, pois apenas levava 5 euros na carteira, que é o limite a que me permito nestes engates de fruição decadente. Lá encontrei um onde se servia vinho a copo, e perguntei o preço. 1,5 euros cada, pedi 2. Perguntei se se queria sentar, e olhou lá para dentro dizendo que queria comer algo. Disse em inglês que podia comer o que quisesse que eu só tinha 5 euros para lhe pagar o vinho, que sou um cheap bastard. Ficou surpresa a olhar para mim, que fingi sentar-me com cuidado e não perceber o seu período de reflexão se eu valia o seu tempo ou não. Sim, que isto se um gajo não está disposto a gastar dinheiro, é porque para elas, não se interessa por elas. Pelos vistos ou eu suscitava interesse ou era a rebarba dela que falava mais alto. Fomos falando, e eu a desempenhar o único acto que conheço, impressionando com a minha suposta esperteza e verve, que ela me avisou logo que não era boa em bantering, e testei-a com todos os velhos truques desde falar do Putin até a temas religiosos e sobre energias metafísicas. Para quem gostava muito de realidades geográficas, acreditava em muita coisa que a ciência tem dificuldade em provar, por exemplo dizia ser empedernida feminista, mas não sabia citar fontes da suposta opressão milenar patriarcal. Desgostava dos portugueses porque só tinham espalhado guerra e escravidão, perguntei-lhe se gostava de abacate, ou banana, ou açúcar. Disse-lhe que para ser congruente, teria de abandonar tudo aquilo que comprovadamente, os portugueses trouxeram de positivo ao mundo. Um conjunto acrítico de lugares-comuns. Mas siga, a conversa estava agradável, comprei-lhe um último copo de vinho que não quis beber todo e despejei metade no meu copo. Perguntei-lhe porque odiava os homens. Disse-me que não os odiava, até porque estava ali comigo. Expliquei-lhe que pode odiá-los e ao mesmo tempo fodê-los. Que desejo sexual não significa gostar do quer que seja que um género tem em comum na maioria dos seus indivíduos. Estava a ficar frio e o Sol a pôr-se. Era imune às minhas explicações sobre a antiga arquitectura portuguesa, para ela Portugal é um pardieiro que vale pelo Sol e pela comida. Terminado o meu vinho, ela levanta-se e diz que amanhã, o avião parte cedo para a bela Estocolmo. Levo-a à porta do hotel, como cavalheiro que nunca deixo de ser, não por elas, mas por mim. Ao entrar segura a porta para eu entrar também. Apesar de ter os bolsos do casaco atulhados de preservativos, não estava a contar ir pinar. Bem, seja, mais uma aventura, pensei. Ainda tinha uma garrafa de tinto aberta lá em cima. Quando lhe perguntei, disse que sabia que eu não era psicopata, nos primeiros 5 segundos em que me viu. Seja, vá-se lá entender esta malta que acredita em astrologia. Tiro o casaco e por acaso a tshirt favorece os bíceps, potenciadores de ardilosas punhetas. Perguntei-lhe, ingenuamente, quem lhe pagava o quarto de hotel, se era ela, se era a faculdade que a convidava. Perguntou-me porque perguntava, e respondi que era porque um dia podia ser convidado para discursar sobre um naufrágio qualquer, e não queria parecer um bimbo pouco sofisticado. E era verdade. Surge uma postura agressiva e arreliada de que os homens não podem ver mulheres emancipadas, e que eu nunca faria aquela pergunta a um homem. Disse-lhe que por acaso não, era mesmo por curiosidade genuína, mas caga nisso, disse eu. Ela não perguntou o que eu dissera, não queria ficar dependente da minha resposta. Perguntou-me se tinha filhos. Olhei para a aliança dela no dedo, e nunca percebo se é de casada ou noiva ou namorada ou o raio que parta. Disse ‘-Not that i know of…’ Que é uma graçola que funciona bem em português. Ficou escandalizada como se tivesse descoberto a escondida essência do meu ser. Fez-me ali o raio x. Do nada falou das nacionalidades que coleccionara, catalães, bascos, e todos os estereótipos do Mamma Mia!... Fiquei sem perceber se era para me impressionar. Disse uma coisa qualquer e acariciei-a no ombro. Disse-me que estávamos à 3 horas a falar e que só agora a acariciara. Dei por mim a pensar que esta malta está de facto habituada a um mundo fácil e abundante. Seja, levantei-me e beijei-a na boca, e em breve respirações mediocramente ofegantes, com uma surpresa da parte dela, pelo quanto a beijava no rosto com carinho exagerado de primeira vez. Um preservativo surge algures, mas não do meu casaco. Em cima dela o costumeiro acelerar de operações, para manter a erecção sufocada por borracha tropical. Olhando para baixo, vejo-a observando-me esclamando-me ‘-Fuck me, fuck me!’ Algo em mim que não eu, segredou-me ao ouvido, não dês um orgasmo a essa gaja. Sou mais que uma pila ocasional e de aluguer. Pila ao domicílio. Não levas o que queres, pensei eu em surdina. Talvez uma recusa em ser instrumentalizado, como se foder, para um homem, fosse um prémio, do ponto de vista desta malta. Vi no seu rosto a desilusão de uma situação repetida, apesar de ser comigo a primeira vez. Não foi apenas o ter murchado, foi o não querer mesmo estar ali. Deitei-me, tentei o reconforto clássico, its not you, baby, somethings wrong with me now. Ainda foi atabalhoada sorver do membro decaído em murcheza sob a camisa de Vénus, num esforço pouco convencido de lutar pelo seu orgasmo, contentando-se em pensar mal de uma nacionalidade. Em abono de verdade, disse que era mais difícil para nós gajos, que para elas, ter de ter uma erecção. Kudos para ela. Um dia inteiro fora de casa, fez-me ter consciência do meu odor pessoal. Meti-me em cima dela, ensaiei uns beijos, gabei-lhe o rosto, mas nenhuma urgência surge em mim. Digo-lhe que vou lavar o sovaco, que estou a cheirar mal, que me dê algum tempo. Quando saio da casa-de-banho, está vestida, com os óculos postos. Diz-me, com as mãos na cintura, que tem de dormir. Rio-me, como que em desabafo. Ok. Visto-me e ao sair, dou-lhe um abraço e digo que se feel free to warn when you arrive, to know you safe and sound. Desço as escadas, em direcção a casa e rasgando o coração a Lisboa que atravesso, feliz por não ter tido, por uma vez, tesão.
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