Viúva Profissional
  • Casa
  • Miguel Esteves Cardoso / Pedro Paixão
  • Susana Pascoal
  • Ad se ipsum
  • Casas
  • Galeria
  • Recursos

Eu vou para onde quer que vás

8/1/2023

0 Comments

 
Picture
Como Filoctetes, passeio pela vida com uma ferida que não sara nunca e que tem o teu nome.


Em reuniões com amigos de longa data, já o meu riso não é tão despojado e franco, quando vejo o pôr-do-sol já não sinto o mundo como  o  mais maravilhoso lugar, quando olho o céu azul já não lacrimejo, o mar já não me enche de ansiedade por não se aproximar rapidamente do carro que me leva a ele, nem sentir a água fria de encontro ao meu peito, me tira a respiração.


Não é que viver faz mossa?
Mas eu não era assim antes de acontecermos um no outro.
Sei que também não fui tudo o que merecias, desde o momento que as fiz, que reconheço as minhas falhas.


Mas que castigo esse, do teu desprezo.


Depois de ti, o meu tempo é contado de forma diferente.
É como se a vida se tivesse tornado num violento combate de boxe, comigo num canto do ringue a levar pancada que já não consigo sentir por colapso do sistema nervoso, encolhido sobre mim e protegendo a cara, sabendo que é apenas uma questão de aguardar quem chega primeiro, se o KO se o toque do gongo… para eu voltar a esquecer-me que existo.


Feriste-me de morte, como um desses pobres touros vazados numa arena derramando sangue arterial às mãos de sádicos sanguinários.
Trespassaste-me com a bandarilha da tua indiferença e agora já só aguardo que tudo acabe.


O teu desprezo faz de mim parvo apenas por ter acreditado que a sintonia entre as pessoas vai além de uma conjugação de circunstâncias.


Mas diz-me, explica-me, como é que é possível que se separem aqueles que em algum ponto se abraçaram e desejaram profundamente não mais se separar, ou que o tempo se congelasse num momento em que a dor da separação com tudo, se aplacou ou tirou férias?


Não percebo nada desta merda.
Não pode ser apenas a idealização da portadora de útero.
Se fosse apenas isso e não uma morte no verdadeiro sentido da palavra, a dor desaparecia com a posse de outras gónadas.


E se o que choro não tem a ver contigo, mas com a pessoa, que eu era antes de te conhecer?
Será que é por isso que te odeio? Porque roubaste o melhor de mim e deitaste-o num qualquer contentor do lixo nos arrabaldes?


Quando demos as mãos, o calor do Estio, amaciava as nossas peles no Parque das Nações, a excitação de termos conseguido obter a presença um do outro, e garantida a mesma nesse tempo, com a tua cabeça encostada no meu ombro o mundo fazia sentido a partir de onde o olhava.
Tenho a disciplina para me ordenar a apagar-te completamente da minha lembrança, mas sei também que já levaste tanto de mim, que se tiro mais um pouco, deixo de ser pouco mais que um invólucro vazio.

Abençoada a tua vida, com maior capacidade de esquecimento e de seguir em frente.

Eu sou infelizmente, como um ecrã de radar, em que o teu trajeto já alguma vez vê o rasto esmorecido.



0 Comments



Leave a Reply.

    Viúvas:

    Arquivos:

    Novembro 2025
    Outubro 2025
    Setembro 2025
    Agosto 2025
    Março 2025
    Janeiro 2025
    Novembro 2024
    Outubro 2024
    Junho 2024
    Maio 2024
    Abril 2024
    Março 2024
    Fevereiro 2024
    Janeiro 2024
    Dezembro 2023
    Novembro 2023
    Outubro 2023
    Setembro 2023
    Agosto 2023
    Julho 2023
    Junho 2023
    Maio 2023
    Abril 2023
    Março 2023
    Fevereiro 2023
    Janeiro 2023
    Dezembro 2022
    Outubro 2022
    Setembro 2022
    Agosto 2022
    Julho 2022
    Junho 2022
    Maio 2022
    Abril 2022
    Março 2022
    Fevereiro 2022
    Janeiro 2022
    Dezembro 2021
    Novembro 2021
    Outubro 2021
    Agosto 2021
    Julho 2021
    Junho 2021
    Maio 2021
    Abril 2021
    Março 2021
    Fevereiro 2021
    Janeiro 2021
    Dezembro 2020
    Novembro 2020
    Outubro 2020
    Setembro 2020
    Maio 2020
    Abril 2020
    Fevereiro 2020
    Janeiro 2020
    Dezembro 2019
    Novembro 2019
    Outubro 2019
    Setembro 2019
    Agosto 2019
    Julho 2019
    Junho 2019
    Maio 2019
    Abril 2019
    Dezembro 2018
    Novembro 2018
    Setembro 2018
    Abril 2018
    Janeiro 2018
    Junho 2017
    Setembro 2016
    Maio 2016
    Outubro 2015
    Agosto 2015
    Junho 2015
    Fevereiro 2015
    Janeiro 2015
    Novembro 2014
    Outubro 2014
    Setembro 2014
    Dezembro 2013
    Novembro 2013
    Outubro 2013
    Maio 2013
    Fevereiro 2013
    Janeiro 2013
    Dezembro 2012
    Agosto 2011
    Março 2011
    Junho 2010
    Julho 2009
    Fevereiro 2009
    Janeiro 2009
    Agosto 2008
    Julho 2008
    Junho 2008
    Maio 2008
    Fevereiro 2007
    Janeiro 2007
    Dezembro 2006
    Novembro 2006

    Tori Amos - Professional Widow (Remix) (Official Music Video) from the album 'Boys For Pele' (1996) - todos os direitos reservados: 
    Atlantic (US)
    East West (Europe)

    Metropolis - Giorgio Moroder &  Freddie Mercury -  Columbia - 1985
Powered by Create your own unique website with customizable templates.
  • Casa
  • Miguel Esteves Cardoso / Pedro Paixão
  • Susana Pascoal
  • Ad se ipsum
  • Casas
  • Galeria
  • Recursos