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Peregrinação I

10/6/2019

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Os olhos.
Os olhos.
Tinha fantasiado dar corpo ao fascínio que sinto por ela, penetrando-a lenta e ritmicamente olhando seus olhos no fundo preto onde me perderia, e ela olhando os meus.

Até ejacular como se a minha caixa torácica fosse implodida por dentro com espasmos de cargas explosivas avulsas.
Virmo- os dois, olhando no mais fundo das nossas almas e corpos.

A luxúria foi tal que só exigia mais e cada vez mais, como se fazer amor não fosse um acto de carinho mas uma guerra de cerco destruindo as muralhas um do outro para podermos viver unidos, finalmente em paz e êxtase.

Dentro da minha camada cortical uma voz perguntava, '-Cerejinha, que olhar em pulsão estilhaçante é esse, oscilando entre duas forças que se aniquilam, aniquilando a ti?'

Quando todos morrermos estas pulsões que sentimos como motores sónicos pelas estrelas, serão anedotas em honra do Nada.
Reverberamos em mundos fechados a estímulos repetitivos, nada de novo debaixo do Sol.

Cada mancebo convencido que é o melhor e mais inesquecível na cama, cada donzela convencida que é a mais apta para adoração.

Mas somos mais que ansiedade de perfomance, não somos? 
Fomos em determinado momento no tempo, tal como determinado momento no passado em núpcias de intimidade, verdadeiras almas laboriosas no derrube dos limites que o corpo impõe, para se poderem unir.

E como te disse no dia do nosso abraço eterno, para vires ter comigo terias de te engolir toda e partir do zero, querendo realmente mergulhar no que sou.

Satisfaço-me com a alegria que emana de ainda conseguir gostar assim, de reverberar como cristal recentemente arrefecido saído do forno.
Os teus estilhaços afagam-me da mesma forma que afogo meu falo na tua vulva que o exige.

Passo lentamente a mão pelo teu rosto, e digo-te que que te quero muito e que queria muito lamber as cicatrizes das tuas guerras.
Entrar nessa cabeça e entrar em luta contra todos esses demónios que nos espreitam daí, estrangulando-os, partindo-lhes os braços, deslocando omoplatas, ou partindo colunas.

Mas sei que me dirias que não sou superior a ti, e eu não conseguiria extirpar o pensamento em hierarquia, dessas palavras.
Resta-me a intenção, e o lamento pelo kuzushi constante, instrumental ou não.


Pouso os lábios entre um teu olho e o nariz. 
Beijo-te suavemente e com todo o carinho que te tenho.
Enquanto houverem Golens entre nós, nunca nossas almas se abraçarão.

Disseste '-O horror, o horror...'



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Sublimação

1/6/2019

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 A pila estava ardendo.
A noite de sexo deixara espólio sob a forma de vermelhidão e um sentimento de ardor, na minha zona corpórea mais sensível.
Durmo sempre depois de dar uns beijinhos e me habituar ao corpo dela, até que ela se farte da minha atenção e só queira queimar algum tempo sob o signo onírico.


Depois de uma sessão de foda começada às quatro da tarde, eram duas da manhã e eu olhava para ela dormindo.
E a olhar para ela dormindo, olhava para mim olhando para ela dormindo. Coisa fodida esta da consciência, a puta nunca incide exactamente da forma que quero.


Ela, dormia levemente sem movimento rápido dos olhos, de boca aberta, e eu olhando fazia-lhe festinhas no rosto como que se o meu coração se abrisse sem ter ninguém à frente para se proteger, e eu imaginando todas as possibilidades em aberto no futuro, e eu depois delas a lembrar o momento presente.


E que no cômputo geral da vida quer o meu amor quer o significado daquele momento meu seriam tão insignificantes como a extinção em massa dos dinossauros  para os hominídeos de hoje.


Pela porta espelhada do guarda-vestidos vi a minha cara de apaixonado reflectida de volta para mim, e o gajo lá do outro lado respondia-me com um olhar que parecia perguntar ‘-Tás parvo?Dás-lhe meia hipótese e ela oblitera-te. Protege-te parvo, parece que não aprendes.’
Isso e outra coisa, a minha reflexão revelava uma expressão de mim, que raramente vejo na minha cara e que é tão mas tão óbvia.


A de carinho e vivo apreço por aquela pessoa que respira de boca aberta.
E só por isso me reconheci como humano, como macaco pelado, cuja individuação apresenta como maravilha do Universo.


Eu e milhares de outros ao mesmo tempo deveríamos estar a olhar para espelhos, no planeta Terra, e a pensar no mesmo. Apenas eu e o meu amigo ego, trabalhávamos para conferir ao momento um carácter especial que a Matemática não permite.


Que se foda, matematicamente esta pessoa nunca me esquecerá nem eu a ela, seremos acordes em patético menor pelo registo do elástico tempo da relatividade.


Não me quis trair, todos os elos partem.
Mas os elos partir, não me determinam. Sou mais forte. Mantive o meu carinho, a minha expressão de apreço por esta humanidade de boca aberta e que tinha de se levantar cedo para trabalhar no dia seguinte.


A decisão tomada por forças alheias a ela dentro de 1300 centímetros cúbicos de crânio não me determinaria mesmo que o resultado fosse, e será a minha aniquilação.


Mas já morri antes, a morte não me vai levar de vez.
O corpo dela sob o ronco que as mucosas de 40 Primaveras permitem, não me erodiu a palma da mão que transmitia o meu espanto e fascínio por alguém diferente de mim a quem não consigo resistir, e cuja tonta expressão de apreço se reduz a um toque físico, uma festinha prolongada na sua derme, porque mamíferos sabemos que o toque é rei ou autoestrada para a verdade.


O cérebro dizia-me para não me acostumar à proximidade, mas nas suas falhas futuras, na sua falta de consideração para comigo, na sua falta de respeito, eu não via um ataque pessoal, apenas expressão da sua humanidade, ainda presa à visão imediata que tem do mundo.


Dizem que a àguia lá em cima vê toda a paisagem e que o rato apenas conhece os corredores por onde foge.
No fundo não sou eu o predado, sou eu aquele que tenta perceber o que é humano, numa fogueira onde deita a madeira de que é constituído, rejuvenescendo como uma fénix que lamente pelo eco do infinito, «-Esta merda é tão estranha, não percebo um caralho. A racionalidade de Deus não me esmaga, enlouquece-me.»
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